A jornalista e fotógrafa Sofia Calabria , de São Paulo, é a responsável pelo projeto “Cicatriz – Memória Marcada na Pele” , onde ret...

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2017

Projeto fotográfico aborda a relação entre as pessoas e suas cicatrizes

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A jornalista e fotógrafa Sofia Calabria, de São Paulo, é a responsável pelo projeto “Cicatriz – Memória Marcada na Pele”, onde retrata delicadas imagens de diversas pessoas e suas cicatrizes, além de relatos pessoais contando a história de cada marca no corpo carregada por elas.

Ao todo, 26 pessoas, além da própria autora, participam do projeto multimídia, que traz à tona intimidades e memórias íntimas reveladas à Sofia. Segundo a jornalista, a ideia surgiu durante um trabalho da faculdade, onde deveriam explorar o tema ‘resistência’.

“Deveríamos fazer um ensaio cujo tema era ‘resistência’. Foi então que me atendei ao meu próprio corpo. Eu também tenho uma cicatriz com uma história importante. E o que é a cicatriz se não a resistência da memória na pele? A partir disso decidi continuar o projeto e expandi-lo”, conta Sofia.
Através de um chamado online, pessoas das mais diferentes idades, cor e gênero se voluntariaram para participar do projeto que, além do site, conta também com um livro impresso.

Barbara Monfrinato
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Meu pai me levou pra casa da praia que tava sendo construída e a minha mãe ficou aqui em São Paulo com a minha irmã que tinha acabado de nascer. Meu pai me levou e levou a família dele. Em algum momento do churrasco em que eles estavam lá fora eu fui me aventurar na casa e subi numa escada de pedreiro, porque não tinha escada de verdade ainda e devo ter tropeçado num degrau, cai de lá de cima e aí que meu pai lembrou de mim (risos) e eu sangrei muito. Minha mãe e minha vó ficaram muito bravas com ele e até hoje não dá pra tocar nesse assunto que vai dar briga. Isso mostra muito do caos da relação entre eles. Meu pai sempre foi mais distraído e cabeça dura, mas também ele tá sempre disponível pra te ajudar se precisar. A minha mãe fica falando que eu podia ter morrido, ter batido a cabeça. O engraçado é que ela também tem uma cicatriz no queixo e depois minha irmã também fez uma. Nós três achamos engraçado ter essa ligação com a cicatriz. Parece que faz da gente uma família: as três mulheres com cicatriz. Por mais que tenha esse exagero da minha mãe de falar que eu podia ter morrido, realmente poderia ter sido muito pior e só ficou essa cicatriz pequenininha. De alguma forma eu sinto que ela me protege e que eu fui protegida nesse dia. Mesmo que às vezes eu não lembre dessa cicatriz, mesmo que às vezes eu nem olhe pra ela, é um pedaço da minha infância.”

Nairim Bernardo
nairim 

“Eu tenho problema no pé. Tenho pé plano. Quando eu tinha 12 anos já tinha passado em vários médicos e nenhum dava muito certo. Aí passei em um outro que a minha mãe tinha gostado mais e ele falou que precisava operar os meus pés. Aí marcamos a cirurgia pra dezembro. Tinha um período longo de recuperação, então eu ia ficar as férias inteiras de gesso. Tirei o gesso em janeiro e aí eu tava com a cicatriz. Pensei, “ah, talvez ela diminua”. (risos) Eu sempre fui muito encafifada com cicatriz. Eu lembro que ficava saindo casquinha, tinha que tirar ponto. Eu não gostava muito dela. Depois no outro ano eu fiz cirurgia no pé esquerdo. Aí ficou cicatriz de novo. A cirurgia não deu certo. Um ano e meio depois eu tive que operar de novo. Aí fez oooutra cicatriz. Aí a cirurgia não deu certo de novo! Eu tive que operar de novo, isso já em 2014, e dessa vez ficaram duas cicatrizes. Eu adquiri uma certa sensibilidade desse lado. Eu sinto constantemente como se estivesse anestesiado. Com o tempo eu fui me acostumando com as minhas cicatrizes e acho que ajuda o fato de elas serem no pé. Quase não dá pra ver. As pessoas não param muito pra ver, mas eu não gosto muito de ter. Elas simbolizam um período meio ruim da minha vida. Eu passei três natais, três férias, com o pé operado. Eu operava logo que saía de férias e eu ficava as férias inteiras de gesso. Natal, ano novo, janeiro. E normalmente são meses super quentes se você tá de gesso. Eu tinha que usar muleta, não podia apoiar o pé no chão, então minha mãe tinha que me levar pra todos os lugares. Foram períodos de ficar fazendo nada, meio ruins.”

Alessandra Alves
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“Era começo dos anos 90. Ninguém ia chutar que um bebê tinha gastrite crônica igual eu tinha. Quando eu tinha uns 8 anos achamos um médico que disse que eu tinha gastrite e esofagite. Eu tinha uma má formação no meu esôfago. Ele falou que eu precisava refazer uma válvula do esôfago. No começo a cicatriz vinha da costela até o umbigo, mas eu descobri que eu tinha queloide. Diminuiu, mas ficou assim mais larguinha. A segunda cirurgia eu comecei a sentir uma dorzinha nas costas. Pensei, “ah, eu tô carregando mochila pesada, deve ser esperada. Vou voltar a fazer atividade física e vai ficar tudo bem”. Aí fui fazer raio-x e lembro que o médico falou: “você tem uma espondilolistese”. Olhei pra mim mãe… que? Tá falando grego, né. Aí ele falou, “você tem um deslocamento de vértebra.O seu já tá num nível avançado. De modo geral, o que a gente faz é colocar pinos de titânio”. Eu demorei pra acreditar que eu precisava daquilo. Eu sempre pratiquei esporte. Quando eu voltei, meu irmão falou “nossa que grande”. Aí que eu fui ver a cicatriz. Eu achei ela grande. Mas acho que o lance da cicatriz é isso. É uma marca física, uma linha que tá escrita no nosso corpo. O processo tá na gente. Eu gosto dela hoje. Faz parte de mim. Você pode tirar a cicatriz, mas a memória dela e da cirurgia nunca vão sair de mim. As dificuldades que a gente passa na vida são o que a gente é e nossas marcas também.”

Felipe Salles
felipe 

“Era 1992 para 1993. Ainda não havia tomógrafos, então não dava pra saber o que estava acontecendo dentro do meu corpo. Fizeram todos os testes com sangue, de presença desta ou daquela substância. Eu não parava de chorar e não parava de doer. Minha mãe inclusive ficou com os cabelos brancos nessa época, tadinha (risos). Eu fui o causador dos cabelos brancos da minha mãe. Até que um dia passou um doutor do meu lado e viu na minha anamnese que eu tava tomando tantos ml de morfina e virou pra ela e falou “e ele não para de chorar?” e ela falou “não”. Ele falou “ah então a gente vai ver o que esse bebê tem agora”. Ele me levou direto pra sala de cirurgia. Aí já abriram e viram que tinha esse “divertículo de meckel hemorrágico”, que é uma doença de má formação em que a pele que reveste o estômago foi corroída, portanto o suco gástrico tava me digerindo de dentro pra fora. Eu já tinha perdido parte dos órgãos. Inclusive meu intestino tava se liquefazendo. Ele reconectou os meus órgãos e me fechou e por conta disso eu tinha uma cicatriz que ia desde o osso externo até o pênis. Era imensa e com o tempo ela foi diminuindo e hoje ela fica só em volta do meu umbigo. Ela é uma cicatriz que eu não vi acontecer e que remete a um momento da minha vida que é de memórias construídas, contadas. Ela faz tão parte de mim que quando as pessoas me perguntam se eu tenho uma cicatriz eu não lembro que ela é uma.”

Imagens © Reprodução Sofia Calabria


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